Angela Davis escreveu em “Mulheres, Classe e Raça” que a história da escravidão e da luta da população negra pela liberdade nos Estados Unidos, sob a perspectiva das mulheres escravizadas, ainda está para ser contada. Ali, esta luta teve a participação de mulheres brancas inseridas na classe burguesa e mulheres da classe trabalhadora que constituíram com as mulheres negras um comum, a partir (e em torno) da luta para alteração de uma condição que não era exatamente a sua própria. Percebiam, porém, que a luta pela libertação da população negra integrava, de alguma maneira, a luta pela alteração das próprias injustiças – distintas – às quais estavam submetidas. A maioria dessas mulheres brancas aprendeu a atuar na luta política aliando-se à causa da abolição da escravidão. No entanto, este comum possível entre mulheres mostrou-se temporário, uma vez que, durante o processo de luta, as mulheres negras apontavam para o nascente movimento feminista estadunidense as suas fissuras, incongruências e limites, por desconsiderar a condição racializada das mulheres negras nas suas especificidades e os efeitos na constituição daquela sociedade.
É no centro dessa cisão das lutas feministas que a literatura combativa de Toni Morrison se insere. Ao colocar-se como criadora de novas imagens das negras e negros na literatura, Morrison combate os estereótipos superficiais e racistas reproduzidos pelo pensamento hegemônico. A escritora dizia ser necessário mostrar o lugar dos negros na formação da América e criar imagens que trouxessem ao visível não só a beleza, mas também a especificidade do olhar negro e feminino sobre a experiência africana no Novo Mundo: daí a necessidade de contar a história da diáspora forçada e da luta pela liberdade a partir da perspectiva das mulheres negras, como pensou Angela Davis. Suas personagens, a maioria mulheres, são fragmentadas e estão em construção. O amor e a liberdade são processos realizados continuamente. A maternidade envolve escolhas de vida e de morte, na qual a morte, muitas vezes, é expressão de amor e afirmação da liberdade. A música, o som, o tambor e o ritmo presentes em suas histórias são elementos de resistência: para espantar a dor, perturbar o silêncio, redimensionar a vida e criar novos mundos possíveis.
Viviana Ribeiro é professora. Doutoranda em Direito (PUC-Rio) e mestra em Filosofia (UFF). Graduada em Direito pelo IBMEC - RJ. Pesquisadora egressa do Grupo de Estudos Comparados de Literatura e Cultura (GECOMLIC/UFRJ), coordenado pelos prof. Dr. Eduardo Coutinho e prof.ª Dra. Monica Amim. Integrante do Grupo de Trabalho Deleuze da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (GT- Deleuze/ANPOF). Integrante do Ciclo de Leitura Espinosa, PUC-Rio.